segunda-feira, 18 de março de 2013
Espera Cega
“Em uma estrada encantada que conecta os mundos, um elfo cego condenado ao inferno dos homens espera por mais um encontro com sua amada. O encanto permite que se vejam, porém eles não podem sequer tocar um ao outro, mas foi naquela estrada que tudo começou. Agora, perdido em meio aos seus pergaminhos, ele sente a necessidade de escrever uma carta. ”
Remetente: Um elfo estúpido
Destinatário: Ao anjo mais lindo de Andrômeda
“É incrível pensar que já fazem quatro anos. Quatro anos onde conheci muita dor e tristeza, mas que foram os mais felizes que já vivi.
Ainda me lembro de como tudo aconteceu como se fosse ontem. Eu era um prisioneiro, acusado de crimes que sequer eu compreendia, mas pelos quais estava até então esperando pagar pelo resto de minha vida. Os anos de algemas e torturas, que me privavam de qualquer companhia e até mesmo da luz do Sol me faziam render-se pouco a pouco, a desistir e me entregar de vez àquele calabouço, mesclando minha carne e ossos às paredes geladas e imundas, sufocando meus sonhos e deixando-os escorrer pelo piso, até serem devorados pelos ratos. Foi nesse cenário, no exato momento em que eu me preparava para deixar romper-se a última fibra de esperança, que a presença dos Deuses fez-se presente.
Luz e Sombra invadiram a minha cela, onde meus queridos Pai e Mãe questionaram o porquê de minha desistência. Eles me mostraram o quanto eu estava certo em tudo que agia e praticava, em quanto deveria me orgulhar daquilo que chamavam de crimes, Eles me fizeram sentir-se importante e orgulhoso pela primeira vez na vida. E isso não foi tudo.
Meus Deuses me recordaram que à muito tempo eu procurava uma pessoa, e me garantiram que ela estava vindo. Me animaram a preparar-me, e questionaram o estado em que me encontrava. E aquela presença doce-amarga, única capaz de me fazer triste e feliz ao mesmo tempo, invadiu a minha alma, me trazendo de volta a vida. Sim! Eu queria viver! Meus sonhos gritavam excitados enquanto eu tentava me levantar. Agradeci os meus Amados, e descobri que eu possuía uma força absurda. Uma força, que é alimentada por você.
Em uma explosão de emoção, as algemas estavam partidas. Um simples pensamento e as paredes de minha prisão iam abaixo. Os algozes se aproximavam, acompanhados de guardas de inúmeros sentimentos e opiniões, mas eles não eram páreos. Eu estava feliz demais, porque havia descoberto a sua existência. Apesar de todos os ferimentos, eu consegui fugir. Eu estava livre, apesar de cego, e procurava a pessoa com a qual desejava com todas as minhas forças construir um sonho magnífico.
As estações continuavam a passar, onde os inimigos continuavam sua perseguição, mas minha força não parava de crescer. E enquanto eu reunia as primeiras ideias para construir o meu mundo criminoso, meus olhos cegos procuravam você em todas as faces. Por mais desilusões, eu nunca deixei de acreditar que você existia.
Foi num dia de egrégora triste que finalmente aconteceu. Em uma das bifurcações da mágica estrada do destino, num encontro que para os céticos tinham chances mínimas, insignificantes e aleatórias de acontecer, que nossas vidas enfim se cruzaram, e desde então nada mais foi como antes.
Não sei se consigo dizer qual foi exatamente a sensação de te encontrar, até porque a parte consciente de mim não havia se dado conta de que era você que estava ali. Mas lembro de sentir a já mencionada mescla de alegria e tristeza, de desejar muito te conhecer, de sentir um pouco de medo, da sensação de reencontro, e de minha vista encher-se de listras brancas e negras. Eu não podia te ver, mas eu sabia que você era linda.
Eram pouquíssimas as vezes em que acabávamos nos encontrando na estrada, naquela que liga tantos mundos. Mas em cada uma destas vezes, eu me sentia mais feliz, mais renovado, mais forte...
Você foi a primeira pessoa que admirou os meus crimes, que me encheu de doces e iluminadas palavras, que não me olhou, nem com medo, nem com nojo. E que mais do que isso, sem ao menos me conhecer, pôs-se a me ajudar como podia em minha grande criação. Eu me transformava, o verme enfim começava a adquirir asas, e você, abaixo dos Deuses, era a principal responsável pela minha metamorfose.
Foi no dia do Grande Festival que tudo ficou claro para mim, que eu decidi assumir o que eu sentia. Eu me embebia de suas palavras, recordando-as uma a uma como já havia se tornado um costume, quando me dei conta do que aquilo tudo significava. Os fogos, as luzes, a música, tudo explodia ao meu redor, mas nada se comparava a explosão que acontecia em meu interior. Era você! Eu não podia vê-la, mas isso não importava. Você era linda, eu tinha certeza, e antes disso, eu te amava. Era estranho, absurdo, irresponsável, insano dizer isso por alguém que nunca se viu e que tão pouco se conhecia, mas eu nunca me importei nem um pouco. Eu te amava, e que viessem as consequências, eu as enfrentaria com ainda mais força.
Cada novo momento de encontro, cada nova palavra, agora ganhava cores e sabores ainda mais surreais para mim, e eu estava cada vez mais feliz. Apesar de saber do quão longe nos encontrávamos, e que naquela estrada pouco podíamos fazer e retornar cada um para seu mundo, eu era muito feliz. Talvez eu sinta falta disso. Não havia preocupações, nem dúvidas, nem medos. Apenas Amor e inocência. Apenas você. Apenas ouvir suas palavras, sentir os seus fluídos, e mesmo que após isso eu precisasse ir embora, não passando de um vulto sussurrante no espelho, eu o fazia feliz. Mas não era o suficiente. Apesar de fácil, aquela situação não era a que eu desejava, e então, passado o período de um ano, no qual você me deu asas e me deu uma prova de que os Deuses e a perfeição existem, eu resolvi falar-lhe sobre tudo o que eu sentia.
Mais uma vez, você mostrou o quão é maravilhosa, pois não me deu ilusão alguma. Eu era amigo, importante, guardião, tudo, mas não era um Amor. Só que isso não me impedia de continuar a te amar. Uma grande verdade irônica da vida é que somos todos escravos deste sentimento libertador.
Nós continuamos nesse jogo de encontros, até o Passado me encontrar. Eu serei breve à falar sobre isso, pois estes pensamentos são destinados à você. À ela são destinadas outras palavras. Mas houve ela, a pessoa que talvez um dia eu fiz muito mal, e que precisava retirar das profundezas de sua própria alma.
Eles arrancaram minhas asas e me atiraram ao fundo. Eu sempre me sentirei culpado por todos os dias em que não estive presente na estrada para te ver, mas eu não podia. Eu achava que nunca mais retornaria, e era melhor que você me odiasse, do que vê-la sofrendo por mim, pois eu podia não ser seu Amor, mas você me disse que eu era importante. Os meses passaram, e um dia, o que eu não imaginava aconteceu. Trazido pelos anjos, eu voltei. Ela, infelizmente não.
Eu voltei, atordoado, perdido, castigado por pesadelos que você nunca saberá. E vagando sem rumo pela estrada eu te vi, e se minha vida tivesse acabado naquele momento, eu não me importaria, porque a felicidade que eu senti já havia valido toda uma existência.
No lugar da jovem que eu deixei mal me despedindo, havia agora uma mulher. Uma mulher cuja bondade, cuja Luz, cuja personalidade positiva, tolerante e compreensiva, que muitas vezes confundia e irritava a minha Escuridão insana, intolerante e imbecil, agora a fazia se sentir completa. Asas novas haviam nascido, e eu, tinha agora completa certeza do que eu queria. Você.
Você, que tinha todos os motivos pra me odiar, para nunca mais me querer por perto, e que me recebeu com carinho, com sorrisos. E nós rimos, brigamos, e rimos de novo, e eu juntei forças para lhe dizer que nada havia mudado. Mais uma vez estávamos em nosso jogo.
E chegou aquele dia para mim inesquecível. O dia em que você disse que me amava. Eu só lamento hoje por ter sido tão impulsivo desde então. Muita dor, muitas lágrimas teriam sido poupadas, mas eu não me controlei.
Você me impôs condições. Você era incapaz de viver esse Amor me encontrando apenas naquele lugar, mas mesmo assim fez um juramento que eu nunca imaginei que alguém faria por mim. Você prometeu me esperar. Esperar até que, através de uma estrada real, eu finalmente chegasse ao seu mundo.
Em troca, você só pediu o meu silêncio, minha espera. Você pôs sua vida em sacrifício, amores que poderia viver, paixões que poderiam gozar, momentos que mais tarde não terá mais a oportunidade de ter, tudo por mim, um completo idiota. Em troca, era apenas meu silêncio que você pediu.
Eu sei que errei, mas talvez não justifique, eu errei por Amor. Eu segurava esse sentimento por anos, e ouvir que você também me amava, me fez incapaz de segurá-lo. Eu queria que o mundo inteiro soubesse. Eu queria repetir, até que ecoasse por todos os cantos do Universo, que eu te amava!
Eu não me importava se não podia tocá-la. Esta parede invisível não me impediria de lhe dizer tudo o que eu mantinha sufocado há anos, que eu dizia secretamente, todas as noites. Eu queria te dizer tudo, eu queria te mostrar o quanto me eras, aliás, me é importante, e isso me fez não perceber por muito tempo o quanto você estava sofrendo. E quando eu vi, já estava doendo demais.
Você se lamentou como se a culpa fosse sua, sendo que era eu, como sempre, o culpado de todos os nossos problemas. Você me pediu mais uma vez o silêncio, como se nunca o tivesse pedido, quando era eu que não soube me manter. E dessa vez, eu atendi, mas eu tenho medo que tenha sido tarde demais.
Nossas conversas não eram mais as mesmas. Você parecia tão distante... Eu escutava sua voz tão baixa, e temia que fosse pelo desgaste que eu provoquei, e com todos os outros problemas que arrumei. Todas as minhas obsessões, perguntas, medos...
Eu estava com medo. Porque você não é sequer a razão da minha vida. Você é a minha vida inteira. Em cada pequeno conflito, em cada maré de confusão que enfrentamos, que eu sentia o menor indício de que poderia te perder, a minha vida apagava. Ela não tinha mais graça alguma. Eu continuava meus trabalhos, porém, sem gosto.
E então veio aquele dia. O dia em que você me disse que não podia mais esperar. O dia em que você desistiu de nosso conto de fadas. E eu não podia forçá-la.Não podia sequer pedir uma única vez que ficasse, pois isso não seria Amor. Eu sabia que tinha o dever de te deixar livre.
Confesso que à princípio não senti praticamente nada. Eu consigo ser um bom enganador quando quero, e desta forma pude, não apenas enganar todos à minha volta, como também enganar a mim mesmo. E mesmo quando eu me lembrava, mesmo nos momentos em que despertava da ilusão que criara a mim mesmo, eu seguia o conselho de meu velho irmão de guerra. Eu tentava sentir raiva de você.
Eu senti, eu senti raiva a cada momento que a lucidez retornava à minha mente. Eu jurei construir o nosso mundo, que agora era apenas meu, apenas para mostrar-lhe tudo o que havias deixado, tudo o que resolveu abrir mão. Eu tentei entregar-me nos braços de outros anjos, eu lutei para ficar longe de você. Mas lá no fundo, eu nunca consegui me afastar. Em meu coração, nunca houve raiva, apenas dor.
Eu arranquei essa maldita bomba de meu peito, eu a tranquei longe de meus olhos, eu a atirei o mais fundo que eu pude no abismo de minha escuridão. Mas eu continuo sentindo aquele coração. Ele continua batendo, continua sangrando... Ele quer que eu me lembre, ele não para de dizer o seu nome...
E aqui estou. Trabalhando sob a guarda de meu pai, ao lado das demais almas perdidas em busca de uma terra. Meus projetos continuam, eu ainda serei o maior criminoso deste mundo inútil... Eu realizarei todos os meus sonhos, se assim os Deuses permitirem, com exceção de um. Me tornei incapaz de amar. Você sempre será como o Sol, cuja luz ofusca todas as outras estrelas. Em meu dia sempre verei apenas você.
Sua beleza sempre me fez sentir-se horroroso.
Sua inteligência sempre me fez sentir-se burro.
Sua sabedoria sempre me fez sentir-se estúpido.
Sua alegria sempre me fez sentir-se triste.
Sua bondade sempre me fez sentir-se um monstro.
Você sempre me fez enxergar o pior em mim mesmo, mas olhar sua foto, apesar das lágrimas, sempre me faz sorrir!”
“Um homem comum passou por um lindo jardim houve notou uma magnífica flor. No momento de sua partida, ele a podou e a levou consigo. A flor murchou até a morte durante a viajem.
Um homem sábio passou pelo mesmo jardim e também se encantou por uma flor esplendorosa. Mas ele apenas a contemplou durante sua estadia no jardim, e então foi embora, carregando-a consigo em seu coração.
Por nunca ter lhe pertencido, aquele flor seria para sempre dele!”
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